D - "Todavia... tenho o costume de dormir; e que me represento em sonhos as mesmas coisas do que esses dementes quando encontra-se acordados. Quantas vezes não sonhei que estava aqui como agora estou, assim vestido frente a lareira com uma folha de papel entre as mãos quando de fato encontrava-me despido e deitado sobre minha cama dormindo??? Parece-me, não há dúvida, que não é com os olhos adormecidos que estou enxergando este papel e que esta cabeça que estou a abanar não se encontra apoiada; que é de propósito deliberado que estendo minha mão; e que a estou sentindo; e tudo quanto se me sucede nos sonhos não me parece assim tão claro e tão distinto, como tudo isto que agora ocorre. No entanto, pensando cuidadosamente o caso, recordo-me de muitas vezes ter sido enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E tão manifesto se me vai tornando, ao pensar nisto, o não existirem indícios seguros para distinguirmos o sono da vigília, que me vou sentindo cheio de pasmo - pasmo que por pouco me persuadiria de que estou em verdade adormecido.
Suponhamos, pois, que nos encontramos adormecidos; e que todas aquelas particularidades - a saber: que abrimos os olhos, que abanamos a cabeça, que estendemos as mãos, e que coisas tais - são só ilusões; e pensemos que as mãos, e todo o corpo, não são talvez como nós vemos. Todavia, cumpre pelo menos reconhecer que as coisas que nos representamos nos nossos sonhos são como painéis e pinturas, isto é, formadas pela semelhança com as coisas reais, verdadeiras; e assim, dir-se-a que pelo menos as coisas gerais (a saber: olhos, cabeça, mãos, pés, etc) não são imaginárias mas verdadeiras e existentes; pois os pintores, ainda quando procuram com engenhosidade, representar sátiros e sereias, não podem lhes conferir formas e naturezas que sejam completamente novas; mas fazem uma mistura ou associação quanto as formas de diversos animais; ou então, cas possuam uma imaginação tão fértil a ponto de produzir algo que jamais tenha sido visto, e que suas obras representem algo de puramente fictício ou fabuloso; ainda as cores de que se revestem tem de ser verdadeiras..." Descartes in "Meditações..."
M - Sinto cheirinho de "Matrix"??? (Na acepção comum ou mais vulgar)
D - Então suponhamos que estamos enclausurados em incubadoras gigantescas vivendo uma vida meramente virtual ou imaginária... ou que estamos presos dentro de uma gigantesca caverna contemplando 'sombras chinesas' refletivas no fundo.
Aqui o guia pode ser tanto Descartes quanto Platão, Avenarius, Mach ou Husserl; e você pode escolher estar na HD de um computador, numa caverna ou num sonho...
M - Apreciemos antes de tudo a possível resposta fornecida pelo próprio Descartes:
"Em particular a incerteza geral no que diz respeito ao sono, que eu jamais poderia distinguir da vigília. Pois agora, com efeito, encontro uma diferença notável: é que nossa memória jamais encadeia os sonhos uns com os outros de forma sequencial e tendo em vista formar um conjunto; o que no entanto é característico da vigília. Assim se um objeto ou coisa qualquer desaparecesse subitamente diante de meus olhos ou se me manifestasse bruscamente como saído do 'nada'; teria indício seguro e certo de estar sonhando ou produzindo uma imagem artificiosa. No entanto quando percebo qualquer coisa em conexão com o local donde vem, o momento em que apareceu, sua origem ou sentido; e sobretudo quando posso relaciona-la com o conjunto de minha própria vida; posso intuir que estou muito bem acordado e não dormindo." Id, ibd
Nem podemos estar em desacordo com Descartes pelo simples fatos de sermos perfeitamente capazes de formular os conceitos relativos de sonho e vigília.
De fato não temos como conceber o sono ou o sonho exceto em oposição a vigília/realidade.
Caso não existisse uma realidade qualquer como poderia haver sonho???
D - De fato não negamos que a realidade exista. Ela de fato existe em si mesma, o homem no entanto, jamais tem acesso a ela, jamais entra em contato com ela, jamais a percebe...
Vive pois num estado de sono ou sonho eterno.
M - Como a bela adormecida antes de ser beijada pelo príncipe?
D - Jamais beijada pelo príncipe.
O homem jamais desperta de seu sono.
M - Um sonho em que sonhamos... Interessante.
No entanto, caso o homem jamais tivesse qualquer tipo de acesso a realidade, como seria capaz de concebe-la? Pois como já foi dito só temos a experiência do sono/sonho só existe em oposição a experiência da realidade.
Considere que na 'matrix' o 'sono/sonho' é posto a luz porque ao menos algumas pessoas tiveram acesso a realidade... o mesmo se pode dizer da caverna de Platão; a caverna é reconhecida como tal por aqueles que dela saíram...
Postular a existência dum sonho contínuo, sem contrapartida e do qual jamais se pode sair é converte-lo em realidade e supor uma realidade jamais averiguada é transforma-la em sonho...
D - Então consideremos apenas a dificuldade que temos para saber quando estamos sonhando e quando estamos acordados.
M - Penso que Descartes tenha já esgotado o assunto.
Vejamos porém, se a luz da psicologia contemporânea podemos acrescentar alguma coisinha.
Os sonhos de modo geral, na medida em que encontram-se no acesso direto da vontade, caracterizam-se pelo aspecto mágico ou improvisado. As coisas simplesmente acontecem... objetos aparecem em cena sem maiores explicações e nem temos como saber o que sucedeu antes.
Tendo em vista esse aspecto predominantemente mágico do universo onírico algumas pessoas tem sido capaz de perceber que estão sonhando. E diante disto de controlar seus próprios sonhos e de reverterem pesadelos inclusive...
Não se trata aqui de acordar e ter ciência de que teve um sonho; partindo da realidade, mas de perceber-se sonhando no próprio sonho ou seja, fora da realidade.
Alguns psicólogos inclusive chegaram a elencar certas características comuns, típicas dos sonhos, em oposição a realidade.
Como o traçado invariavelmente diagonal do calçamento das ruas e dos pisos... em contraposição do quadrangular e retangular predominantes no 'mundo real'.
Também é evidente que só experimentamos despertar dos sonhos; jamais da realidade externa na qual e para a qual nos sentimos despertar...
Por outro lado, como foi salientado por Descartes, a solução de continuidade que experimentamos quando despertos; face a descontinuidade absoluta apresentada pelo fenômeno onírico, parece marcante.
A vida parece sempre mais consistente porque prosaica e sequencial... o mundo dos sonhos é tanto mais disperso, variável, conveniente e redutível ao controle subjetivo.
D - ...
sexta-feira, 26 de julho de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
Respostas as opiniões formuladas pelos céticos
D - "Não se pode compreender a coisa nem com base em si mesma nem com base em qualquer outra coisa." Pirro in Hyp I, 178 Alias "É impossível constatar se entre o ideal e o real existe alguma ponte ou 'elo de ligação'"
M - E por que?
Porque nem podemos entrar nas coisas, nem somos capazes de nos transformarmos nelas; alega o cético.
E porque a maior parte delas sequer pode falar e por assim dizer comunicar a outro ser, algum tipo de informação sobre si.
Pode no entanto suceder-se que as coisas, de algum modo, possam sair de si mesmas e comunicarem-se ou manifestarem-se a outros seres...
Caso consideremos a espécie humana em particular não há como negar a existência de uma linguagem comum que possibilita uma troca de experiências. Falamos e pela fala, comunica-mo-nos e pela comunicação compreende-mo-nos... na medida em que manifestamos nossa consciência aos demais e V V.
Mesmo as coisas imateriais manifestam-se de algum modo e dizem algo a respeito de si na medida em que produzem sons, odores, linhas ou cores peculiares ou característicos. E este ato de produzir ou de fornecer dados de natureza sensível é um comunicar-se, um manifestar-se, um revelar-se aquele que recebe tais dados...
É como se o objeto pudesse dizer: possuo esta capacidade, esta cor, esta forma, este sabor, esta textura; e a combinação de tais dados torna-me diferente de todos os outros; logo, identificável.
Existe pois uma ponte ou 'elo de ligação' entre o objeto e o sujeito cognoscente e este elo são as qualidades sensíveis, que dele, por assim dizer, procedem por emanação.
D - Como no entanto saber se as tais qualidades sensíveis informam-nos com exatidão a respeito da realidade externa a nós?
M - Por meio do teste ou da funcionalidade.
D - Penso não ter compreendido bem.
M - Suponhamos que eu tome em minhas mãos um lápis e ter pergunte: o que é isto?
Então você me responde - Não sei e em seguida utiliza-o tendo em vista escrever uma composição...
Você declara não saber para que serve o lápis e no entanto emprega-o como todas as outras pessoas.
A outro aponto para uma bola e faço a mesma pergunta.
Obtendo a seguinte resposta: Para mim pode ser um avião.
Resta-me dizer: passe a demonstração > pilote-o e transporte-se nesta bola a S Paulo ou a Paris.
Então por mais que você insista, grite e bata o pé, negando-se a reconhecer que se trata duma bola não pode 'trata-la' ou proceder com ela como se fosse, de fato, um avião.
D - Eh???
M - Seu ceticismo, seu relativismo, seu idealismo, seu voluntarismo não passam de discursos vazios ou da 'flatu vocis' como diziam os medievos...
Pois não possuem aplicação prática.
D - Compreendo.
M - Por outro lado se na medida em que percebo e compreendo entro em relações concretas com o objeto de minha percepção/compreensão ou interajo com ele, prevendo com exatidão outros estados a serem assumidos por ele ou mesmo atuando sobre ele e transformando-o, evidencio que meu conhecimento a respeito dele é real.
Como poderia eu interferir na condição do objeto ou modificar sua estrutura sem que meu conhecimento a respeito dele corresponde-se a algo que, de fato, acha correspondência nele.
Como o homem seria capaz de quebrar ou partir um átomo e de produzir energia caso meu conhecimento a respeito do átomo pertencesse apenas a esfera do ideal ou do imaginável???
Assim na medida em que o conhecimento científico altera a estrutura dos seres e objetos que nos cercam constatamos corresponder ele aos seres ou objetos em questão, i é, constatamos a objetividade de nossos conhecimentos.
M - E por que?
Porque nem podemos entrar nas coisas, nem somos capazes de nos transformarmos nelas; alega o cético.
E porque a maior parte delas sequer pode falar e por assim dizer comunicar a outro ser, algum tipo de informação sobre si.
Pode no entanto suceder-se que as coisas, de algum modo, possam sair de si mesmas e comunicarem-se ou manifestarem-se a outros seres...
Caso consideremos a espécie humana em particular não há como negar a existência de uma linguagem comum que possibilita uma troca de experiências. Falamos e pela fala, comunica-mo-nos e pela comunicação compreende-mo-nos... na medida em que manifestamos nossa consciência aos demais e V V.
Mesmo as coisas imateriais manifestam-se de algum modo e dizem algo a respeito de si na medida em que produzem sons, odores, linhas ou cores peculiares ou característicos. E este ato de produzir ou de fornecer dados de natureza sensível é um comunicar-se, um manifestar-se, um revelar-se aquele que recebe tais dados...
É como se o objeto pudesse dizer: possuo esta capacidade, esta cor, esta forma, este sabor, esta textura; e a combinação de tais dados torna-me diferente de todos os outros; logo, identificável.
Existe pois uma ponte ou 'elo de ligação' entre o objeto e o sujeito cognoscente e este elo são as qualidades sensíveis, que dele, por assim dizer, procedem por emanação.
D - Como no entanto saber se as tais qualidades sensíveis informam-nos com exatidão a respeito da realidade externa a nós?
M - Por meio do teste ou da funcionalidade.
D - Penso não ter compreendido bem.
M - Suponhamos que eu tome em minhas mãos um lápis e ter pergunte: o que é isto?
Então você me responde - Não sei e em seguida utiliza-o tendo em vista escrever uma composição...
Você declara não saber para que serve o lápis e no entanto emprega-o como todas as outras pessoas.
A outro aponto para uma bola e faço a mesma pergunta.
Obtendo a seguinte resposta: Para mim pode ser um avião.
Resta-me dizer: passe a demonstração > pilote-o e transporte-se nesta bola a S Paulo ou a Paris.
Então por mais que você insista, grite e bata o pé, negando-se a reconhecer que se trata duma bola não pode 'trata-la' ou proceder com ela como se fosse, de fato, um avião.
D - Eh???
M - Seu ceticismo, seu relativismo, seu idealismo, seu voluntarismo não passam de discursos vazios ou da 'flatu vocis' como diziam os medievos...
Pois não possuem aplicação prática.
D - Compreendo.
M - Por outro lado se na medida em que percebo e compreendo entro em relações concretas com o objeto de minha percepção/compreensão ou interajo com ele, prevendo com exatidão outros estados a serem assumidos por ele ou mesmo atuando sobre ele e transformando-o, evidencio que meu conhecimento a respeito dele é real.
Como poderia eu interferir na condição do objeto ou modificar sua estrutura sem que meu conhecimento a respeito dele corresponde-se a algo que, de fato, acha correspondência nele.
Como o homem seria capaz de quebrar ou partir um átomo e de produzir energia caso meu conhecimento a respeito do átomo pertencesse apenas a esfera do ideal ou do imaginável???
Assim na medida em que o conhecimento científico altera a estrutura dos seres e objetos que nos cercam constatamos corresponder ele aos seres ou objetos em questão, i é, constatamos a objetividade de nossos conhecimentos.
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Respostas as objeções formuladas pelos céticos: Agripa - O cárater da percepção é relativo
D - Segundo Agripa cada pessoa perceberia o mundo a sua maneira. Assim sendo a percepção de um não pode servir de critério para os demais.
M - O argumento é capícioso e não resiste a uma análise tanto mais aprofundada.
Do contrário em situações iguais uma pessoa sentira frio e outra calor nos pólos... do mesmo modo um sentiria calor e outro frio, no curso do dia, em meio as areias do saara.
O mercado de perfumes poderia muito bem ser substituído por um mercado de fedores sem que muitos percebessem.
O amargor seria fruído como doçura pelos mais diversos paladares.
Os símbolos de transito, os emblemas religiosos e as bandeiras de diversas organizações seriam irrelevantes...
A própria relação entre as pessoas tornar-se-ia problemática na medida em que cada uma ficaria presa a sua imagem de mundo.
A construção dum linguajar estruturalmente universal ou de um legado científico comum ficaria ameaçada senão impossibilitada.
Caso a percepção fosse determinada apenas pela subjetividade, qualquer tipo de partilha em termos de conhecimento ficaria comprometida. Corresponderíamos cada um de nós a uma espécie de universo particular sem muita ligação com os demais...
M - O argumento é capícioso e não resiste a uma análise tanto mais aprofundada.
Do contrário em situações iguais uma pessoa sentira frio e outra calor nos pólos... do mesmo modo um sentiria calor e outro frio, no curso do dia, em meio as areias do saara.
O mercado de perfumes poderia muito bem ser substituído por um mercado de fedores sem que muitos percebessem.
O amargor seria fruído como doçura pelos mais diversos paladares.
Os símbolos de transito, os emblemas religiosos e as bandeiras de diversas organizações seriam irrelevantes...
A própria relação entre as pessoas tornar-se-ia problemática na medida em que cada uma ficaria presa a sua imagem de mundo.
A construção dum linguajar estruturalmente universal ou de um legado científico comum ficaria ameaçada senão impossibilitada.
Caso a percepção fosse determinada apenas pela subjetividade, qualquer tipo de partilha em termos de conhecimento ficaria comprometida. Corresponderíamos cada um de nós a uma espécie de universo particular sem muita ligação com os demais...
Respostas as objeções formuladas pelos céticos - Agripa: Da regressão ao infinito
D - Segundo Agripa 'A necessidade de se demonstrar cada coisa faria com que a busca pelo primeiro princípio ou pelo começo fosse sucessivamente recuada 'Ad infinitum'. Uma após outra as demonstrações se sucederiam, jamais acabariam, nunca teriam fim... e algum elemento ficaria sempre por ser demonstrado. Tal o princípio denominado REGRESSÃO ao infinito; uma demonstração sempre esta firmada sobre outra que precede-a e que por isso mesmo carece ser demonstrada.'
M - O defeito fundamental desta objeção consiste em afirmar gratuitamente que tudo é demonstrável, e que nada haja de seguro e certo que exclua a necessidade da demonstração.
Eis porque a Filosofia perene parte do que chamamos indemonstrável ou axiomático.
D - Ignoro supinamente que seja axiomático.
M - Axiomático é um princípio captado com evidência imediata ou evidente por si mesmo e a respeito do qual não precisamos fazer qualquer tipo de demonstração.
D - Da-me algum exemplo.
M - Não precisamos demonstrar nossa existência para nós mesmos, pois enquanto seres auto conscientes experimentamos o ato de existir e sabemos com absoluta certeza que existimos.
Da mesma forma e maneira sabemos que existem objetos ou melhor formas exteriores a nós e face as quais nos posicionamos assumindo relações. Este simples fato de nos distinguirmos das coisas evidencia a existência delas.
Sabemos por fim que a existência ou ao ser, partilhado por nós e pelo mundo externo com que dialogamos opõem-se ao não ser ou a inexistência; aqui o germe do 'princípio de contradição'.
Alguns expositores acrescentariam ainda o juízo segundo o qual 'A parte é menor que o todo e o todo maior que a parte.'
Parece que cada um dos princípios ou noções acima elencados pode ser captado em sua totalidade e inteireza ou de um só golpe pelo intelecto.
E que não carecem de qualquer tipo de demonstração, pois há um critério de evidência que não precisa ser justificado ou corroborado por outros; pois justifica-se por si mesmo face a consciência.
D - Poderíamos dizer que estamos diante dos mais remotos fundamentos do saber?
M - Sem sombra de dúvida pois é a partir deles que principiamos as demonstrações.
D - O que excluí a regressão ao infinito?
M - Sim, pois como vimos os primeiros princípios apresentam-se ao intelecto evidência imediata, o que excluí qualquer necessidade de demonstrações. A certeza aqui é intuitiva e manifesta.
M - O defeito fundamental desta objeção consiste em afirmar gratuitamente que tudo é demonstrável, e que nada haja de seguro e certo que exclua a necessidade da demonstração.
Eis porque a Filosofia perene parte do que chamamos indemonstrável ou axiomático.
D - Ignoro supinamente que seja axiomático.
M - Axiomático é um princípio captado com evidência imediata ou evidente por si mesmo e a respeito do qual não precisamos fazer qualquer tipo de demonstração.
D - Da-me algum exemplo.
M - Não precisamos demonstrar nossa existência para nós mesmos, pois enquanto seres auto conscientes experimentamos o ato de existir e sabemos com absoluta certeza que existimos.
Da mesma forma e maneira sabemos que existem objetos ou melhor formas exteriores a nós e face as quais nos posicionamos assumindo relações. Este simples fato de nos distinguirmos das coisas evidencia a existência delas.
Sabemos por fim que a existência ou ao ser, partilhado por nós e pelo mundo externo com que dialogamos opõem-se ao não ser ou a inexistência; aqui o germe do 'princípio de contradição'.
Alguns expositores acrescentariam ainda o juízo segundo o qual 'A parte é menor que o todo e o todo maior que a parte.'
Parece que cada um dos princípios ou noções acima elencados pode ser captado em sua totalidade e inteireza ou de um só golpe pelo intelecto.
E que não carecem de qualquer tipo de demonstração, pois há um critério de evidência que não precisa ser justificado ou corroborado por outros; pois justifica-se por si mesmo face a consciência.
D - Poderíamos dizer que estamos diante dos mais remotos fundamentos do saber?
M - Sem sombra de dúvida pois é a partir deles que principiamos as demonstrações.
D - O que excluí a regressão ao infinito?
M - Sim, pois como vimos os primeiros princípios apresentam-se ao intelecto evidência imediata, o que excluí qualquer necessidade de demonstrações. A certeza aqui é intuitiva e manifesta.
D - E quanto ao 'Dialelo' ou círculo vicioso (ARGUMENTO DA CIRCULARIDADE) que supõe a admissão daquilo que é preciso demonstrar; uma vez que demonstrar algo implica admitir a capacidade da demonstração ou a sua validade? Agripa
M - Num primeiro momento salta a vista que o 'dialelo' corresponde a um argumento.
O qual apresentando-se como válido para impugnar o dogmatismo, sanciona o viez demonstrativo da argumentação em geral, que é seu cárater racional.
Suponhamos que intuitivamente ou partindo dos primeiros princípios indemonstráveis eu afirme e sustente que ao menos 'alguma coisa' é possível saber com certeza segura e certa.
Qual seria a reação do cético diante disto?
D - Penso que ao menos instintivamente ele opusesse algum tipo de argumento ou objeção.
M - E aqui estaria a morte da coerência, pois emitir objeções ou argumentar implica sempre admitir que alguma coisa é conhecida de modo a servir de fundamento a argumentação. Logo ao argumentar sobre o ceticismo nosso adversário entra uma arapuca... Pois a negação completa de todo conhecimento é dogma que se destrói a si mesmo ou forma de suicídio intelectual.
Independentemente de seu valor, uma vez que o 'dialelo' é um tipo de argumento, supõe certa capacidade intelectual ou racional e volta-se contra o próprio ceticismo em termos absolutos.
D - Mas quanto ao valor do 'dialelo' em si mesmo?
M - O 'dialelo' peca por supor ou suster que a capacidade do intelecto para atingir a verdade seja objeto de demonstração pelo qual demonstraríamos a demonstrabilidade...
Donde se segue que intentando demonstrar a demonstrabilidade cairíamos numa 'petição de princípio' - pois a demonstração da aptidão suporia a mesma aptidão para demonstrar...
Acontece que a 'aptidão do intelecto para a verdade' pertence justamente aquele gênero de certezas acima designadas como axiomáticas e indemonstráveis.
Não precisamos recorrer a evidências mediatas/remotas ou a esquemas de lógica com o objetivo de demonstrar tal capacidade uma vez que no ato mesmo de elaborar qualquer tipo de juízo esta capacidade MOSTRA-SE A SI MESMA COM EVIDÊNCIA IMEDIATA ou intuitivamente.
Caso a consciência não soubesse com evidência imediata que é capaz de apreender a verdade jamais encetaria qualquer tipo de juízo, ou melhor, se soubesse que é incapaz de apreender qualquer coisa sequer seria capaz de promover qualquer tipo de predicação ou juízo sem fazer violência a si mesma. Pois saberia estar encetando um ato falho...
E no entanto o ato de julgar é tanto espontâneo quanto universal. Diante disto só nos resta admitir que a inteligência, ao implementar tais atos, reconhece a si mesma como apta para conhecer...
D - És capaz de fornecer-me algum exemplo tanto mais palpável?
M - É certo que não posso ouvir uma bela sinfonia caso não possuam antes aptidão para isto. No entanto não é necessário que esta minha aptidão seja conhecida antes do ato... POIS TAL APTIDÃO É CONHECIDA E VERIFICADA IMEDIATAMENTE, OU SEJA, NO PRÓPRIO ATO; pois da simples existência do ato em si podemos inferir a aptidão do agente para produzi-lo...
D - És capaz de fornecer-me algum exemplo tanto mais palpável?
M - É certo que não posso ouvir uma bela sinfonia caso não possuam antes aptidão para isto. No entanto não é necessário que esta minha aptidão seja conhecida antes do ato... POIS TAL APTIDÃO É CONHECIDA E VERIFICADA IMEDIATAMENTE, OU SEJA, NO PRÓPRIO ATO; pois da simples existência do ato em si podemos inferir a aptidão do agente para produzi-lo...
D - Explica-me agora como a inteligência seria capaz de conhecer sua própria capacidade cognitiva???
M - "A inteligência sendo dinâmica é perfeitamente capaz de voltar-se sobre seus próprios atos e operações, não apenas com o objetivo de conhece-los, mas para conhecer sua conformidade com a realidade externa a si; todavia como esta segunda conformidade não pode ser sabida, sem que saiba a natureza do princípio operante: isto é que a inteligência é apta para conformar-se com a realidade. Então para conhecer-se como válida para o objeto deve antes reconhecer-se como válida em si mesma." Aquino in De Veritate I,09
Em suma: todos juízo trás embutido em si mesmo um valor crítico, porque implica controle da inteligência sobre seus atos para ver se afirmando afirma o que é ou se negando nega o que não é; quando a inteligência toma consciência de estar captando algo que esteja presente no objeto ou de estar percebendo que este ou aquele atributo não se encontra nele ela se sente inclinada a afirmar ou negar com absoluta seguridade. E mesmo a vontade educada na escola do ceticismo sente-se dificultada ao querer impedir este ato, o ato do juízo. Ora o intelecto tende para o juízo porque vê a si mesmo, internamente (ou auto percebe-se), como apto ou capaz e vê-se a si mesmo porque não é estático.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Respostas as objeções formuladas pelos céticos: cultura, linguagem, universais e abstração.
D - "Nossas impressões tornam-nos menos críticos na medida em que repetem-se com demasiada frequência." Tropói IX o que é exposto por Sextus do seguinte modo: "Apesar do Sol ser maior do que qualquer cometa nem sua imagem nem seu calor costumam chamar nossa atenção."
M - Justamente porque os fenômenos sucedem-se repetidamente, concluímos a favor de sua existência real.
Tal o caso do Sol, a respeito de cuja existência e esfericidade não nutrimos qualquer dúvida justamente por contempla-lo quase que diariamente.
Por outro lado tanto mais raro é determinado fenômeno e tanto mais propensos somos a duvidar de sua existência.
Não é certamente porque esperamos, que o Sol nasce no dia seguinte ou que a lua continua orbitando em torno da terra...
Não é que a sucessão contínua e repetitiva dos eventos nos torne menos críticos. O que ela nos torna é melhor informados e menos teimosos ou obstinados no sentido de alimentar suspeitas, prevenções e desconfianças infundadas. Ela de fato nos permite superar uma crítica, a princípio justa e louvável, pela posse dum conhecimento a respeito do qual não é possível qualquer tipo de hesitação.
Tanto a repetição constitui o selo da certeza, que as experiências científicas são repetidas milhares de vezes até que se chegue a alguma conclusão. Diga-o Weissman e seus ratos...
D - "Os homens são educados com crenças diferentes, sob diferentes leis e condições sociais distintas." Tropói X assim exposto por Sextus: "Isto diz respeito a regras de conduta, hábitos, leis, crenças e concepções lendárias e idéias fixas."
Pascal também parece admitir tal pressuposto quando assim se expressa: "Engraçada a justiça que esta montanha ou riacho limitam. Verdade aquém dos Pirineus e erro além."
M - Curto, mas demasiado empolgante o espaço concedido a cultura por tais pensadores. Afinal o problema da cultura - ou melhor dos 'costumes' conforme define Thompson (nos 'Usos e costumes..) -pouco chamou a atenção do homem antigo - a exceção de Heródoto, Aristóteles, Dicearco e Possidonius entre os gregos e de Varro entre os antigos romanos - e menos ainda do homem medieval e moderno.
Daí crermos ser conveniente prolongar um pouco este diálogo face a riqueza duma temática ainda tão mal explorada. Ademais estamos persuadidos a respeito que que uma analise mais ampla, detalhada e profunda a respeito da cultura, suas notas e peculiaridades só poderá reverter em benefício do dogmatismo e em detrimento do ceticismo.
Num primeiro momento é importante salientar que estamos analisando a cultura humana. Sem rejeitar que certas espécies de animais sejam capazes de não só produzir como até mesmo de transmitir cultura, nosso interesse neste tópico restringe-se a cultura produzida pelo homo sapiens.
Grosso modo podemos definir cultura como tudo quando tem sido produzido pela espécie humana no decorrer de sua existência.
Há pois uma cultura material e uma cultura imaterial - a primeira responsável pela invenção e confecção do alfinete ou do telefone e a segunda responsável pelo eudemonismo aristotélico, pela doutrina espírita ou pela teoria da relatividade...
A cultura material diz respeito aos bens ou objetos materiais e a cultura imaterial diz respeito a nossa produção imaterial ou espiritual; a 'theoria' dos antigos gregos. Naturalmente que nosso diálogo diz respeito ao segundo aspecto em questão, i é, a produção do conhecimento imaterial, elaborado e reflexivo, ou mesmo intuitivo...
Como no passado remoto e até bem pouco tempo o transporte e a comunicação dependiam de meios bastante precários, havia certo isolamento no que diz respeito aos diversos grupos humanos.
Convém salientar que a descoberta da Oceania aconteceu durante as décadas finais do décimo oitavo século e que sua exploração prolongou-se até o final do século seguinte (XIX). E que tanto na África, quanto na Amazônia e na Oceania, os antropólogos tem encontrado e classificado algumas tribos que jamais haviam tido qualquer contato com o homem 'civilizado'... Assim a globalização - iniciada no século XVI - só se completa no século XX, isto é a pouco mais de cem anos...
Daí ser a cultura, no que concerne ao espaço, caracteristicamente fragmentária ou 'regional' quer em sentido continental/nacional, quer em sentido tribal ou grupal até chegarmos a unidade familiar ou primária. Implica reconhecer a produção de cultura até certo ponto diferenciada ou plural, seja do ponto de vista da religião, quanto do ponto de vista da moral, da organização familiar e social, da estética, do direito, etc como quer e concede Aenesidemus...
Caso neste cenário absolutamente tudo seja relativo e contraditório nada há que deduzir... todavia caso haja algum elemento comum ou universal para além do isolamento regional, neste caso devemos refletir um tanto mais sobre o assunto... e aprofundar a questão.
A existência de universais formais profundos, no sentido sugerido pelos exemplos acima implica admitir que todas as línguas humanas correspondem a um esquema ou a uma estrutura comum.
D - Explicitamente falando substantivo, sujeito, verbo/ação, predicado, qualidade atribuída, objeto externo, etc que são elementos mais ou menos explícitos e que podem ser traduzidos em termos de 'Eu' e de objeto externo ou mundo externo. Implicitamente teríamos sempre presente a noção abstrata do 'Ser'; o que levou Rosmini a formular o ONTOLOGISMO, supondo sua presença inata em todos os homens na medida em que fazendo-se presente em todas as formas de linguagem transcende por assim dizer as limitações temporais e espaciais atinentes a cultura.
M - Aqui cumpre conjecturar a respeito de tais elementos presentes em todas as culturas humanas e por assim dizer universais. Qual seria sua origem? Precederiam eles a todo e qualquer tipo de percepção ou de experiencialidade? Seriam eles inatos ou apriorísticos? Teriam sido infundidos no homem pelo sagrado? Qual seu significado? Ideal? Material?
D - Confesso que tais cogitações e perguntas jamais haviam passado por minha cabeça.
M - Guarde-mo-las na memória pois teremos de retornar a elas mais a frente. Por ora basta considerar que existem elementos universais, comuns e estáveis presentes na base da cultura que é a produção da linguagem.
Aqui Descartes: "Pela mesma razão, mesmo se admitirmos que algumas entidades gerais - corpo, cabeça, olhos, mãos, etc) possam ser imaginárias, forçoso é reconhecer que existe um outro gênero de coisas ainda mais simples e universais, que não podem deixar de ser verdadeiras e existentes, coisas essas de cuja participação todas as imagens de nossa mente são formadas... assim a substancialidade dos corpos e sua extensão; e a quantidade ou grandeza expressa pelo número; assim o espaço em que subsistem e o tempo de duração, e ainda algumas outras coisas..." in "Meditações..."
(Assim o Tempo, o espaço, a substancialidade, a extensão, a partição, a proporcionalidade, etc E com muito mais razão: o Eu, o ser ou mundo externo e a relação.)
Baseado em Chomsky
M - Justamente porque os fenômenos sucedem-se repetidamente, concluímos a favor de sua existência real.
Tal o caso do Sol, a respeito de cuja existência e esfericidade não nutrimos qualquer dúvida justamente por contempla-lo quase que diariamente.
Por outro lado tanto mais raro é determinado fenômeno e tanto mais propensos somos a duvidar de sua existência.
Não é certamente porque esperamos, que o Sol nasce no dia seguinte ou que a lua continua orbitando em torno da terra...
Não é que a sucessão contínua e repetitiva dos eventos nos torne menos críticos. O que ela nos torna é melhor informados e menos teimosos ou obstinados no sentido de alimentar suspeitas, prevenções e desconfianças infundadas. Ela de fato nos permite superar uma crítica, a princípio justa e louvável, pela posse dum conhecimento a respeito do qual não é possível qualquer tipo de hesitação.
Tanto a repetição constitui o selo da certeza, que as experiências científicas são repetidas milhares de vezes até que se chegue a alguma conclusão. Diga-o Weissman e seus ratos...
D - "Os homens são educados com crenças diferentes, sob diferentes leis e condições sociais distintas." Tropói X assim exposto por Sextus: "Isto diz respeito a regras de conduta, hábitos, leis, crenças e concepções lendárias e idéias fixas."
Pascal também parece admitir tal pressuposto quando assim se expressa: "Engraçada a justiça que esta montanha ou riacho limitam. Verdade aquém dos Pirineus e erro além."
M - Curto, mas demasiado empolgante o espaço concedido a cultura por tais pensadores. Afinal o problema da cultura - ou melhor dos 'costumes' conforme define Thompson (nos 'Usos e costumes..) -pouco chamou a atenção do homem antigo - a exceção de Heródoto, Aristóteles, Dicearco e Possidonius entre os gregos e de Varro entre os antigos romanos - e menos ainda do homem medieval e moderno.
Daí crermos ser conveniente prolongar um pouco este diálogo face a riqueza duma temática ainda tão mal explorada. Ademais estamos persuadidos a respeito que que uma analise mais ampla, detalhada e profunda a respeito da cultura, suas notas e peculiaridades só poderá reverter em benefício do dogmatismo e em detrimento do ceticismo.
Num primeiro momento é importante salientar que estamos analisando a cultura humana. Sem rejeitar que certas espécies de animais sejam capazes de não só produzir como até mesmo de transmitir cultura, nosso interesse neste tópico restringe-se a cultura produzida pelo homo sapiens.
Grosso modo podemos definir cultura como tudo quando tem sido produzido pela espécie humana no decorrer de sua existência.
Há pois uma cultura material e uma cultura imaterial - a primeira responsável pela invenção e confecção do alfinete ou do telefone e a segunda responsável pelo eudemonismo aristotélico, pela doutrina espírita ou pela teoria da relatividade...
A cultura material diz respeito aos bens ou objetos materiais e a cultura imaterial diz respeito a nossa produção imaterial ou espiritual; a 'theoria' dos antigos gregos. Naturalmente que nosso diálogo diz respeito ao segundo aspecto em questão, i é, a produção do conhecimento imaterial, elaborado e reflexivo, ou mesmo intuitivo...
Como no passado remoto e até bem pouco tempo o transporte e a comunicação dependiam de meios bastante precários, havia certo isolamento no que diz respeito aos diversos grupos humanos.
Convém salientar que a descoberta da Oceania aconteceu durante as décadas finais do décimo oitavo século e que sua exploração prolongou-se até o final do século seguinte (XIX). E que tanto na África, quanto na Amazônia e na Oceania, os antropólogos tem encontrado e classificado algumas tribos que jamais haviam tido qualquer contato com o homem 'civilizado'... Assim a globalização - iniciada no século XVI - só se completa no século XX, isto é a pouco mais de cem anos...
Daí ser a cultura, no que concerne ao espaço, caracteristicamente fragmentária ou 'regional' quer em sentido continental/nacional, quer em sentido tribal ou grupal até chegarmos a unidade familiar ou primária. Implica reconhecer a produção de cultura até certo ponto diferenciada ou plural, seja do ponto de vista da religião, quanto do ponto de vista da moral, da organização familiar e social, da estética, do direito, etc como quer e concede Aenesidemus...
Caso neste cenário absolutamente tudo seja relativo e contraditório nada há que deduzir... todavia caso haja algum elemento comum ou universal para além do isolamento regional, neste caso devemos refletir um tanto mais sobre o assunto... e aprofundar a questão.
DA LINGUAGEM
Assim, de chofre, coloca-mo-nos diante do problema da linguagem que é elemento primacial e central tanto de formação quanto de transmissão da cultura.
Sem querer se reducionista julgo que o problema da cultura identifica-se antes de tudo com o fenômeno da linguagem.
D - Nem vejo como possas encontrar algo de universal na linguagem humana uma vez que cada povo, nação, grupo ou sociedade possui um idioma próprio e por assim dizer, distinto de todos os outros. Quem pode pois haver de comum entre as mais diversas linguas ou idiomas? Sou incapaz de percebe-lo.
M - Compreende-se perfeitamente que um leigo como tu - que possui conhecimentos bastante limitados na área da linguagem humana ou como se diz, da linguística - mostre-se inepto para perceber qualquer tipo de elemento unificador ou universal neste campo. O que não se compreende é que certos teóricos como Sapir-Whorf tenham deixado de perceber tais elementos e postulado um 'relativismo absoluto' em torno do fenômeno da linguagem.
Nem é preciso ser um gênio para inferir as ligações existentes entre o relativismo linguístico, o behaviorismo e a metafísica materialista, correspondendo esta ligação a determinada ideologia que procura defender-se na medida em que é anteposta aos fatos concretos. Aqui como no behaviorismo trata-se sempre de justificar ou de vindicar a qualquer custo a crença materialista e de eliminar tudo quanto se lhe pareça opor.
D - Os vocabulários de línguas diferentes costumam não ser totalmente isomórficos e existem realidades mais facilmente codificáveis em uma língua que em outra.
M - Demonstre.
D - Há cerca de cem anos Franz Boas apresentou o conhecido exemplo de que o esquimó não dispunha de uma única palavra para neve e sim de diversas, uma para cada modalidade de neve, devido à importância que este elemento tem na sua cultura. Por outro lado é assaz sabido que os antigos gregos possuiam dezenas de palavras para designar diversas categorias de copos...
M - Nossa controvérsia com os 'relativistas' não esta focalizada, como muitos creem ou imaginam, na lexicologia ou na morfologia ( que diz respeito das classes ou categorias de palavras consideradas em si mesmas); mas nos elementos primário e essenciais da SINTAXE.
É aqui, no campo da estrutura oracional básica, que postulamos a existência de elementos comuns a todas as formas de linguagem ou universais.
D - Seja mais explícito.
M - Parece que ainda não foram encontradas evidências que nos obriguem para descartar a ideia de que falantes das mais diversas linguas possuam formas aptas para exprimir alguns conceitos fundamentais como: tempo, espaço, número, matéria, quantidade, etc Eu, objeto externo, relação...
Os próprios adeptos do relativismo linguístico estão conscientes face ao problema na medida em que a eliminação ou negação desta estrutura básica comum impediria tanto o bilinguismo quanto a possibilidade da tradução. Os quais sem embargo existem enquanto fenômenos reais pondo em cheque a simples possibilidade dum relativismo absoluto em termos de estrutura linguística ou sintaxe.
D - Caso tenha compreendido corretamento o que quis dizer vossa paternidade esta se referindo a certas categorias fixas (nome, verbo, qualidade etc.), que se encontram na estrutura sintática subjacente de qualquer língua.
M - Podemos acrescentar ainda a existência de universais semânticos que realizam certas funções de designação em todas as línguas.
D - Explique:
M- Cada língua tem de conter itens lexicais para designar pessoas, certos objetos relacionados com o ser humano, certos comportamentos, sentimentos, etc.
Podemos procura-los ainda no campo semântico formal: nomes próprios (existem em qualquer língua), nomes de cores, termos de determinados objetivos, necessidades e funções humanas, etc.
D - Explicitamente falando substantivo, sujeito, verbo/ação, predicado, qualidade atribuída, objeto externo, etc que são elementos mais ou menos explícitos e que podem ser traduzidos em termos de 'Eu' e de objeto externo ou mundo externo. Implicitamente teríamos sempre presente a noção abstrata do 'Ser'; o que levou Rosmini a formular o ONTOLOGISMO, supondo sua presença inata em todos os homens na medida em que fazendo-se presente em todas as formas de linguagem transcende por assim dizer as limitações temporais e espaciais atinentes a cultura.
M - Aqui cumpre conjecturar a respeito de tais elementos presentes em todas as culturas humanas e por assim dizer universais. Qual seria sua origem? Precederiam eles a todo e qualquer tipo de percepção ou de experiencialidade? Seriam eles inatos ou apriorísticos? Teriam sido infundidos no homem pelo sagrado? Qual seu significado? Ideal? Material?
D - Confesso que tais cogitações e perguntas jamais haviam passado por minha cabeça.
M - Guarde-mo-las na memória pois teremos de retornar a elas mais a frente. Por ora basta considerar que existem elementos universais, comuns e estáveis presentes na base da cultura que é a produção da linguagem.
Aqui Descartes: "Pela mesma razão, mesmo se admitirmos que algumas entidades gerais - corpo, cabeça, olhos, mãos, etc) possam ser imaginárias, forçoso é reconhecer que existe um outro gênero de coisas ainda mais simples e universais, que não podem deixar de ser verdadeiras e existentes, coisas essas de cuja participação todas as imagens de nossa mente são formadas... assim a substancialidade dos corpos e sua extensão; e a quantidade ou grandeza expressa pelo número; assim o espaço em que subsistem e o tempo de duração, e ainda algumas outras coisas..." in "Meditações..."
(Assim o Tempo, o espaço, a substancialidade, a extensão, a partição, a proporcionalidade, etc E com muito mais razão: o Eu, o ser ou mundo externo e a relação.)
Baseado em Chomsky
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Respostas as objeções formuladas pelos céticos
D - "Nossas percepções são relativas atuando umas sobre as outras." Tropói 08 Sexto no entanto, assim se expressa: "As diferenças só existem por oposição as demais coisas que existem; donde as coisas diferem com relação a outras coisas? Se diferem são todas relativas a algo... então tudo quanto existe é absolutamente relativo."
M - Grosso modo a faculdade da aesthesis é 'una'.
Todavia o processo de especiação dispoz certos orgãos para certos tipos de qualidades.
Assim a aesthesis tornou-se múltipla na medida em que concentrou-se em determinados orgãos distintos uns dos outros.
Daí as sensações próprias da cor, do som, do odor e do gosto.
Como cada uma percebe um tipo de qualidade diferente não vemos como possam atuar uma sobre a outra indistintamente ou em termos duma intervenção imediata.
Uma impressão jamais atua diretamente sobre outro órgão sensorial produzindo outra impressão; no caso falsa.
Uma impressão no entanto, atuando sobre a imaginação dum percipiente sensível, determina que a imaginação forje impressões ou sensações inexistentes. A imaginação também é capaz de fazer com que a vontade se antecipe a uma percepção dúbia, interpretando-a erroneamente; o que por sinal é bem mais comum.
Daí a necessidade do cientista e do filósofo - como já foi dito anteriormente - educarem a imaginação. Pois é ela, que acreditando estar diante daquilo que deseja, atua diretamente sobre os demais órgãos sensoriais, ora interpretando equivocadamente as impressões mal percebidas, ora produzindo determinadas sensações no caso ilusórias e inexistentes; e conduzindo quase sempre ao erro.
Aqui entraria justamente a virtude da prudência, a qual determinaria uma investigação mais completa a respeito do objeto em questão por meio das demais formas de sensibilidade.
Eis porque julgamos as percepções enriqueçam ou completem umas as outras acrescentando dados a respeito do objeto e tornando-o mais nítido. E que o testemunho dos sentidos deva sempre que possível ser recebido em conjunto...
Segundo nossa opinião cada um deles atua em sua área para que comparando os dados obtidos tenhamos uma visão mais abrangente ou total da coisa.
Quanto a argumentação de Sexto nós jamais negamos que as diferenças ou peculiaridades que caracterizam os diversos tipos de existir, sejam fruto de oposição relativa a outros tantos tipos ou formas de existência. E que sejam inferidas por via de comparação.
Nós bem sabemos que neste sentido os seres são todos relativos uns aos outros. E que nosso conhecimento é majoritariamente relativo na medida em que os objetos ou grupos de objetos devam ser contrapostos para serem conhecidos tanto pelo que possuem em comum quanto pelo que possuem de característico ou propriamente seu. Então para conhecermos os elementos particulares ou distintivos devemos comparar e opor.
O que repudiamos no entanto é que sejam relativos a percepção, ao desejo, a vontade, a imaginação, a fantasia ou ao poder de cada individuo. Exceto quanto a certas formas de vida e a liberdade humana; a existência dos demais seres deve-se a processos de natureza física, química ou biológica irredutíveis ao querer deste ou daquele individuo; e assim a construção do saber na medida em que supõe certos elementos comuns: o aparelho sensorial e a estrutura ou esquema reflexivo de natureza lógica.
Queremos dizer com isto que nosso conhecimento a respeito dos seres cuja condição é relativa contínua sendo objetivo e verdadeiro uma vez que procede das relações que percebemos existir entre os diversos objetos. Poder distinguir o absoluto do relativo é já um modo de conhecer a natureza das coisas.
M - Grosso modo a faculdade da aesthesis é 'una'.
Todavia o processo de especiação dispoz certos orgãos para certos tipos de qualidades.
Assim a aesthesis tornou-se múltipla na medida em que concentrou-se em determinados orgãos distintos uns dos outros.
Daí as sensações próprias da cor, do som, do odor e do gosto.
Como cada uma percebe um tipo de qualidade diferente não vemos como possam atuar uma sobre a outra indistintamente ou em termos duma intervenção imediata.
Uma impressão jamais atua diretamente sobre outro órgão sensorial produzindo outra impressão; no caso falsa.
Uma impressão no entanto, atuando sobre a imaginação dum percipiente sensível, determina que a imaginação forje impressões ou sensações inexistentes. A imaginação também é capaz de fazer com que a vontade se antecipe a uma percepção dúbia, interpretando-a erroneamente; o que por sinal é bem mais comum.
Daí a necessidade do cientista e do filósofo - como já foi dito anteriormente - educarem a imaginação. Pois é ela, que acreditando estar diante daquilo que deseja, atua diretamente sobre os demais órgãos sensoriais, ora interpretando equivocadamente as impressões mal percebidas, ora produzindo determinadas sensações no caso ilusórias e inexistentes; e conduzindo quase sempre ao erro.
Aqui entraria justamente a virtude da prudência, a qual determinaria uma investigação mais completa a respeito do objeto em questão por meio das demais formas de sensibilidade.
Eis porque julgamos as percepções enriqueçam ou completem umas as outras acrescentando dados a respeito do objeto e tornando-o mais nítido. E que o testemunho dos sentidos deva sempre que possível ser recebido em conjunto...
Segundo nossa opinião cada um deles atua em sua área para que comparando os dados obtidos tenhamos uma visão mais abrangente ou total da coisa.
Quanto a argumentação de Sexto nós jamais negamos que as diferenças ou peculiaridades que caracterizam os diversos tipos de existir, sejam fruto de oposição relativa a outros tantos tipos ou formas de existência. E que sejam inferidas por via de comparação.
Nós bem sabemos que neste sentido os seres são todos relativos uns aos outros. E que nosso conhecimento é majoritariamente relativo na medida em que os objetos ou grupos de objetos devam ser contrapostos para serem conhecidos tanto pelo que possuem em comum quanto pelo que possuem de característico ou propriamente seu. Então para conhecermos os elementos particulares ou distintivos devemos comparar e opor.
O que repudiamos no entanto é que sejam relativos a percepção, ao desejo, a vontade, a imaginação, a fantasia ou ao poder de cada individuo. Exceto quanto a certas formas de vida e a liberdade humana; a existência dos demais seres deve-se a processos de natureza física, química ou biológica irredutíveis ao querer deste ou daquele individuo; e assim a construção do saber na medida em que supõe certos elementos comuns: o aparelho sensorial e a estrutura ou esquema reflexivo de natureza lógica.
Queremos dizer com isto que nosso conhecimento a respeito dos seres cuja condição é relativa contínua sendo objetivo e verdadeiro uma vez que procede das relações que percebemos existir entre os diversos objetos. Poder distinguir o absoluto do relativo é já um modo de conhecer a natureza das coisas.
Respostas as objeções formuladas pelos céticos
D - Porque a percepção não é capaz de apreender o objeto por inteiro numa só vez e mesmo instante?
M - Porque os objetos apresentam qualidades distintas. Assim a natureza dispoz o organismo humano para concentrar-se cada uma delas (trabalho de especialização); associadas no entanto ou recompostas pelo intelecto elas apresentam o objeto em sua multipla integralidade ou totalidade.
Caso tomemos os animais uni ou monocelulares, percebemos que em alguns deles receptores de luz, odores e ondas sonoras encontram-se como que disseminados por todo 'corpo', predominando no entanto - caso tomemos por referência o grupo como um todo - o tato, igualmente difuso pelo corpo. Então podemos falar numa aesthesis mais ou menos difusa ou espalhada pelo ser em questão ou numa aesthesis genérica.
Naturalmente que esta capacidade é apta para facilitar a sobrevivência daquele individuo, espécie ou grupo mas não para conhecer o mundo em sua inteireza.
Aos poucos, no entanto, o processo evolutivo implementou o que denominamos especiação sensorial dispondo para cada qualidade externa apresentada pelos objetos um orgão sensorial receptor bem distinto dos demais e por assim dizer adequado. Segundo percebemos a presença de olhos, narizes e lingua; nos insetos, peixes, anfíbios, répteis, aves, etc
Grande número de cientistas admite, inclusive, que o grupo dos mamíferos possui os orgãos sensoriais mais evoluidos e melhor capacitados.
Do ponto de vista biológico podemos dizer que no campo da percepção sensorial o homem esta muito bem provido ou contemplado, caso desejemos compara-lo com os répteis, anfíbios, peixes ou moluscos. Mesmo em se admitindo que particularmente esta ou aquela espécie possua um orgão mais aguçado, o homem parece prevalecer do ponto de vista do conjunto.
Nenhum outro animal parece possuir um conjunto de órgãos ou aparelho sensorial, no mínino, medianamente satisfatório.
Eis porque a atuação conjunta dos sentidos, parece estar disposta para informar-nos validamente sobre certos aspectos do ser ou do objeto externo numa escala superior aos demais niveis de percepção com que nos deparamos no restante do mundo natural. Certamente não podemos suster que os sentidos nos revelem num só golpe absolutamente tudo a respeito do objeto, esgotando-o por assim dizer (de modo que nada reste para ser aprofundado por eles). Por outro lado não julgo que não tenhamos razão suficiente para por em dúvida aquilo que é captado ou percebido.
D - "Os objetos encontram-se em estado de perpétua mudança na cor, temperatura, tamanho e movimento." o que é exposto por Sexto da seguinte maneira: "Assim a azeitona sendo verde quando nova torna-se escura quando madura e as próprias nuvens do céu mudam de cor conforme o evento ou revolução que prenunciam.". Agripa classifica este argumento como de RELAÇÃO.
M - Naturalmente que a partição do tempo sugere a partição dos eventos e sua decorrente sucessão.
Há séculos sabemos viver num universo dinâmico, isto é em movimento e não num universo estático ou fixo como supunham os adeptos da escola eleática e os povos bárbaros em geral.
Parece que o tempo deu razão a Heráclito... Este Heráclito sempre evocado como padrinho pelos relativistas e céticos de ontem e de hoje na medida em que negava toda e qualquer estabilidade postulando um devenir acelerado e absoluto: "Pantha rei" ou seja, tudo fluí, no perpétuo turbilhão do devenir... e sem que haja qualquer coisa de estável ou fixa.
E no entanto o tempo não lhe deu razão completa, a ponto de patentear sua teoria a respeito dum fluir absoluto.
O problema aqui não esta em admitir ou negar as sucessões e transformações mas sim em captar o ritmo das mesmas.
Na própria natureza há transformações que são bastante rápidas como a formação duma tempestade ou duma avalanche de neve; outras imprevistas até como terremotos e maremotos. E no entanto tais transformações não são contínuas ou mesmo cíclicas num sentido mais ou menos rápido, breve ou intenso.
Enquanto outras tantas comportam um ritmo ciclico bastante lento e para muito além da vida e geração do homem. De fato a natureza comporta grande número de eventos cíclicos, revoluções e ritmos a maioria dos quais no entanto não parecem corresponder a brevidade e a rapidez postuladas pelo 'obscuro' efesino.
Assim sendo mesmo nas transformações que alteram o Kosmos parece haver certa constância, ou certo período de repouso. Destarte podemos perceber muito bem a ponto de calcular e prever a fase ou o período de tempo porque passa determinado fenômeno e antever as transformações que se sucederão na fase seguinte porque tais mudanças não são aleatórias. E não sendo nem demasiado rápidas nem aleatórias podem ser captadas pelo aparelho sensorial e apreendidas pelo intelecto mesmo sob a condição de fases 'provisórias' o que, ademais, corresponde perfeitamente a realidade externa e objetiva de um Kosmos em movimento.
A percepção mesma dos movimentos, das fases, dos períodos, das transformações, etc parece opor-se tanto a idéia fixa a respeito dum universo fixo; quanto a ideia dum universo caótico e significa que ao menos alguma coisa somos capazes de perceber. A simples noção de movimento X repouso já supõe algum tipo de conhecimento válido e verdadeiro...
A idéia de que quando percebemos ou conhecemos uma coisa ela já se transformou noutra não passa dum espantalho bastante desengonçado. Do contrário ninguém beberia vinho cuidando ter já se transformado em vinagre... ou tomaria qualquer drink gelado, cuidando ter o gêlo evaporado num instante...
As transformações que envolvem a matéria não parecem ser assim tão rápidas a ponto de impedirem que os sentidos captem certo estádio ou forma mais ou menos constante de ser ou existir.
Eis porque os fenômenos podem ser relacionados em termos de causa e efeito e expressos sob a forma de 'leis'... Sempre que água atingir 100 graus ferverá. Exposta a temperatura de zero grau solidificar-se-a... e assim por diante. A simples ideia de que tais relações ou leis jamais conhecem mudança ou alteração implica a existência de certa estabilidade ou imutabilidade no universo... ficando a sucessão, ao menos em parte estocástica, dos fenômenos; como que inserida na estrutura imutável das relações ou da lei natural.
Aqui Antonio Sérgio: "Segundo disse o velho Heráclito 'É impossível o mesmo homem mergulhar duas vezes no mesmo rio, pois nem ele é o mesmo nem o rio o é.' ... todavia no rio de hoje, cujas águas de fato não são as mesmas observo as mesmas leis hidráulicas que já havia observado antes; e no home que nele mergulhas as mesmas leis psicológicas. ASSIM AS RELAÇÕES SÃO ESTÁVEIS. Prestai atenção neste ponto que vos leva longe; e neste outro: QUANDO SUSTENTO QUE TUDO FLUI, SUSTENTO A EXISTÊNCIA DE ALGO QUE JAMAIS FLUI, A SABER; O ATO DE JUÍZO PELO QUAL AFIRMO 'TUDO FLUI'. DO CONTRÁRIO, SE ESTE JUÍZO FLUÍSSE TAMBÉM COMO SERIA VERDADE QUE TUDO FLUI?" in 'Ensaios' VIII, 244 sgs
Assim "A lei é o que há de fixo e imutável na fluência ou no perpétuo devenir dos fenômenos." completa Vasco de Magalhães Vilhena in 'Pequeno manual de Filosofia" p 519
O mesmo se dá com a acepção vulgar da 'Teoria da relatividade' de Einstein... caso ela implicasse relativismo de cárater subjetivo. Pois a própria teoria seria relativa a subjetividade daquele que a formulou, perdendo assim todo seu valor objetivo... Destarte o simples de Einstein ter formulado sua 'teoria' pertinente a relação tempo e espaço e afirmado sua validade ou existência no plano real, evidencia que o grande físico e gênio do passado século não partilhava do relativismo epistemológico ora predominante.
M - Porque os objetos apresentam qualidades distintas. Assim a natureza dispoz o organismo humano para concentrar-se cada uma delas (trabalho de especialização); associadas no entanto ou recompostas pelo intelecto elas apresentam o objeto em sua multipla integralidade ou totalidade.
Caso tomemos os animais uni ou monocelulares, percebemos que em alguns deles receptores de luz, odores e ondas sonoras encontram-se como que disseminados por todo 'corpo', predominando no entanto - caso tomemos por referência o grupo como um todo - o tato, igualmente difuso pelo corpo. Então podemos falar numa aesthesis mais ou menos difusa ou espalhada pelo ser em questão ou numa aesthesis genérica.
Naturalmente que esta capacidade é apta para facilitar a sobrevivência daquele individuo, espécie ou grupo mas não para conhecer o mundo em sua inteireza.
Aos poucos, no entanto, o processo evolutivo implementou o que denominamos especiação sensorial dispondo para cada qualidade externa apresentada pelos objetos um orgão sensorial receptor bem distinto dos demais e por assim dizer adequado. Segundo percebemos a presença de olhos, narizes e lingua; nos insetos, peixes, anfíbios, répteis, aves, etc
Grande número de cientistas admite, inclusive, que o grupo dos mamíferos possui os orgãos sensoriais mais evoluidos e melhor capacitados.
Do ponto de vista biológico podemos dizer que no campo da percepção sensorial o homem esta muito bem provido ou contemplado, caso desejemos compara-lo com os répteis, anfíbios, peixes ou moluscos. Mesmo em se admitindo que particularmente esta ou aquela espécie possua um orgão mais aguçado, o homem parece prevalecer do ponto de vista do conjunto.
Nenhum outro animal parece possuir um conjunto de órgãos ou aparelho sensorial, no mínino, medianamente satisfatório.
Eis porque a atuação conjunta dos sentidos, parece estar disposta para informar-nos validamente sobre certos aspectos do ser ou do objeto externo numa escala superior aos demais niveis de percepção com que nos deparamos no restante do mundo natural. Certamente não podemos suster que os sentidos nos revelem num só golpe absolutamente tudo a respeito do objeto, esgotando-o por assim dizer (de modo que nada reste para ser aprofundado por eles). Por outro lado não julgo que não tenhamos razão suficiente para por em dúvida aquilo que é captado ou percebido.
D - "Os objetos encontram-se em estado de perpétua mudança na cor, temperatura, tamanho e movimento." o que é exposto por Sexto da seguinte maneira: "Assim a azeitona sendo verde quando nova torna-se escura quando madura e as próprias nuvens do céu mudam de cor conforme o evento ou revolução que prenunciam.". Agripa classifica este argumento como de RELAÇÃO.
M - Naturalmente que a partição do tempo sugere a partição dos eventos e sua decorrente sucessão.
Há séculos sabemos viver num universo dinâmico, isto é em movimento e não num universo estático ou fixo como supunham os adeptos da escola eleática e os povos bárbaros em geral.
Parece que o tempo deu razão a Heráclito... Este Heráclito sempre evocado como padrinho pelos relativistas e céticos de ontem e de hoje na medida em que negava toda e qualquer estabilidade postulando um devenir acelerado e absoluto: "Pantha rei" ou seja, tudo fluí, no perpétuo turbilhão do devenir... e sem que haja qualquer coisa de estável ou fixa.
E no entanto o tempo não lhe deu razão completa, a ponto de patentear sua teoria a respeito dum fluir absoluto.
O problema aqui não esta em admitir ou negar as sucessões e transformações mas sim em captar o ritmo das mesmas.
Na própria natureza há transformações que são bastante rápidas como a formação duma tempestade ou duma avalanche de neve; outras imprevistas até como terremotos e maremotos. E no entanto tais transformações não são contínuas ou mesmo cíclicas num sentido mais ou menos rápido, breve ou intenso.
Enquanto outras tantas comportam um ritmo ciclico bastante lento e para muito além da vida e geração do homem. De fato a natureza comporta grande número de eventos cíclicos, revoluções e ritmos a maioria dos quais no entanto não parecem corresponder a brevidade e a rapidez postuladas pelo 'obscuro' efesino.
Assim sendo mesmo nas transformações que alteram o Kosmos parece haver certa constância, ou certo período de repouso. Destarte podemos perceber muito bem a ponto de calcular e prever a fase ou o período de tempo porque passa determinado fenômeno e antever as transformações que se sucederão na fase seguinte porque tais mudanças não são aleatórias. E não sendo nem demasiado rápidas nem aleatórias podem ser captadas pelo aparelho sensorial e apreendidas pelo intelecto mesmo sob a condição de fases 'provisórias' o que, ademais, corresponde perfeitamente a realidade externa e objetiva de um Kosmos em movimento.
A percepção mesma dos movimentos, das fases, dos períodos, das transformações, etc parece opor-se tanto a idéia fixa a respeito dum universo fixo; quanto a ideia dum universo caótico e significa que ao menos alguma coisa somos capazes de perceber. A simples noção de movimento X repouso já supõe algum tipo de conhecimento válido e verdadeiro...
A idéia de que quando percebemos ou conhecemos uma coisa ela já se transformou noutra não passa dum espantalho bastante desengonçado. Do contrário ninguém beberia vinho cuidando ter já se transformado em vinagre... ou tomaria qualquer drink gelado, cuidando ter o gêlo evaporado num instante...
As transformações que envolvem a matéria não parecem ser assim tão rápidas a ponto de impedirem que os sentidos captem certo estádio ou forma mais ou menos constante de ser ou existir.
Eis porque os fenômenos podem ser relacionados em termos de causa e efeito e expressos sob a forma de 'leis'... Sempre que água atingir 100 graus ferverá. Exposta a temperatura de zero grau solidificar-se-a... e assim por diante. A simples ideia de que tais relações ou leis jamais conhecem mudança ou alteração implica a existência de certa estabilidade ou imutabilidade no universo... ficando a sucessão, ao menos em parte estocástica, dos fenômenos; como que inserida na estrutura imutável das relações ou da lei natural.
Aqui Antonio Sérgio: "Segundo disse o velho Heráclito 'É impossível o mesmo homem mergulhar duas vezes no mesmo rio, pois nem ele é o mesmo nem o rio o é.' ... todavia no rio de hoje, cujas águas de fato não são as mesmas observo as mesmas leis hidráulicas que já havia observado antes; e no home que nele mergulhas as mesmas leis psicológicas. ASSIM AS RELAÇÕES SÃO ESTÁVEIS. Prestai atenção neste ponto que vos leva longe; e neste outro: QUANDO SUSTENTO QUE TUDO FLUI, SUSTENTO A EXISTÊNCIA DE ALGO QUE JAMAIS FLUI, A SABER; O ATO DE JUÍZO PELO QUAL AFIRMO 'TUDO FLUI'. DO CONTRÁRIO, SE ESTE JUÍZO FLUÍSSE TAMBÉM COMO SERIA VERDADE QUE TUDO FLUI?" in 'Ensaios' VIII, 244 sgs
Assim "A lei é o que há de fixo e imutável na fluência ou no perpétuo devenir dos fenômenos." completa Vasco de Magalhães Vilhena in 'Pequeno manual de Filosofia" p 519
O mesmo se dá com a acepção vulgar da 'Teoria da relatividade' de Einstein... caso ela implicasse relativismo de cárater subjetivo. Pois a própria teoria seria relativa a subjetividade daquele que a formulou, perdendo assim todo seu valor objetivo... Destarte o simples de Einstein ter formulado sua 'teoria' pertinente a relação tempo e espaço e afirmado sua validade ou existência no plano real, evidencia que o grande físico e gênio do passado século não partilhava do relativismo epistemológico ora predominante.
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